terça-feira, maio 8

Libertação


A humanidade tem vindo através dos tempos em busca de algo para além do bem estar material, de uma verdade, de uma realidade, algo imperturbável pela própria sociedade.

A eterna pergunta acerca da finalidade da vida, assola as mentes que olham à volta e presenciam a confusão permanente das guerras, fomes, diferentes ideologias, religiões e lhes frustra o vislumbre de um futuro mais risonho.

Foi com base nesta pergunta e nesta frustração que se criou aquilo a que se chama fé, seja num ideal, num guru, num milagre de salvação, mas que irremediavelmente continua a gerar a violência.

Apesar disto, estabeleceram-se códigos de conduta, qualquer que seja a sociedade a que pertençamos, regemo-nos por padrões incutidos sobre o que é certo ou errado e tornamo-nos autómatos nos pensamentos, nas reacções, nos relacionamentos. Regemo-nos todos pelas mesmas regras e desgraçado daquele que ousar ser diferente.

As ideologias também incutidas trouxeram palavras para nos fazerem acreditar que o caminho é por ali, é naquelas palavras que, aquela igreja, aquele culto, aquela seita, aquele guru proferem que temos que seguir. E nós, seres humanos, limitamo-nos a seguir estas palavras, a viver vidas vazias, a ser manipulados pelas tendências externas, pelos ambientes, pelas outras pessoas. Nem sequer conseguimos ter uma ponta de originalidade em qualquer coisa que criemos.

Muitas destas ideologias asseguram-nos que a obediência a estes padrões, ao controlo dos nossos desejos, aliás, à castração dos nossos desejos, dos nossos impulsos sexuais e de qualquer prazer que daí obtenhamos, torturando a nossa própria natureza, nos fará alcançar o céu, o paraíso ou caso contrário o inferno... Enfim...

Por isto, o mundo aceita e segue o caminho tradicional. E não se apercebe que esta é a razão principal da confusão existente dentro de si próprio, a busca da verdade prometida por outros, seguindo o garante de uma vida espiritual confortável e com pouco esforço. Ora vejamos, temos consciência que rejeitamos as ditaduras políticas e às tiranias, no fundo aceitamos esta autoridade e, inclusive, permitimos que nos deforme a nossa mente e a nossa própria vida. Por outro lado, se rejeitarmos a autoridade espiritual, cerimónias, dogmas, acabamos por nos encontrar sozinhos e em conflito com a sociedade (somos diferentes).

Aqui, com esta rejeição, e com consciência, com o sentimento de que esta era uma possibilidade imatura para se poder acompanhar, acabamos por conseguir libertar-nos do medo e passarmos a ser livres, com a consciência porém da perturbação que criaremos à nossa volta e mesmo dentro de nós, mas com a certeza de estarmos livres da teia em que estávamos enredados. Aqui aprendemos que não precisamos de buscar. Aprendemos que se buscamos, é porque estamos do lado de fora, de quem olha para uma montra. Quando começamos a entendermo-nos a compreendermo-nos começamos a ganhar sabedoria.

E, agora, continuamos a olhar para a sociedade em que vivemos e questionamo-nos sobre o que podemos fazer para mudar alguma coisa, começamos a ter consciência de que somos responsáveis pelo que se passa. Apercebemo-nos que o nosso mundo, a nossa vida feita de construções materiais, lutas aguerridas pela competição, pela necessidade de ser o melhor, a posição, o prestígio obtidos, representam agora mais uma dificuldade. Temos medo de abdicar disto, por outro lado já nada faz o mesmo sentido, temos medo do que temos e temos medo do que não temos, porque não conhecemos.

Aqui começa a nossa verdadeira mudança, deixamos de depender de outros, entendemos que já não nos baseamos numa autoridade. Verificamos que já só existimos nós, as nossas relações com os outros, e nada mais. E uma vez mais percebemos quão responsáveis somos pelo mundo, pela nossa própria vida, pelo que pensamos, pelo que sentimos, pelos relacionamentos que temos, pela forma como agimos, e desaparece a autocompaixão. Já não culpamos mais os outros pelos actos proferidos, já não os culpamos tentando descartar-nos da culpa, da nossa própria culpa, da nossa própria responsabilidade.

Então apercebemos do seguinte, ao observar o que se passa na nossa vida interior, e exteriormente, começamos a tomar consciência de que o mundo da mente em que vivemos e que separa o nosso interior com o nosso exterior é só um fragmento da existência e quando consideramos que o processo interno e externo, são um só e indissociáveis pois constituem um processo unitário, e rodam num movimento integral; e que o mundo interior se expressa exteriormente e o movimento exterior, reage ao interior. E aqui, perdemos o medo errar, de agir incorrectamente, de que as escolhas que fazemos nos servem para crescer, então transformamo-nos.

Ficamos a sós connosco próprios, já não contamos com a ajuda de gurus, de mestres ou daqueles que toda a vida nos zuniram aos ouvidos, na verdade não contamos com ninguém. Ganhamos a liberdade e esta não pode fazer nada errado, porque esta é o contrário da revolta, daquilo que sempre sentimos, da prisão de movimentos e pensamentos. Não existe o agir correcta ou incorrectamente. É na liberdade do nosso próprio centro que começamos a agir. Não há medo e o coração sem medo é capaz de infinito amor. E o amor pode fazer o que quer.

Temos então que aprender a conhecermo-nos de acordo com nós próprios, não de acordo com os pensamentos de outros, ou passaremos a conhecer os outros. Olhar para dentro e conhecermo-nos realmente.

E quando percebemos que não podemos depender de ninguém externo a nós próprios para que nos consigamos transformar, começamos a debater-nos com a nossa própria autoridade interior, todos os dogmas que criámos, todas as barreiras que levantámos, as nossas experiências acumuladas (desta e de outras vidas anteriores), conhecimentos, ideais. Tudo começa a desmoronar-se, e porquê? Porque já entendemos, ou começamos a entender que o que se passou ontem já foi, já não serve, porque somos entidades vivas num movimento contínuo, e se permanecermos agarrados a ontem, jamais conseguiremos compreender, e sequer olhar para o movimento vivo da vida, para natureza e beleza desse movimento que nos é mostrado em cada momento.

Quando nos livramos da nossa própria autoridade, começamos a morrer para todas as coisas de ontem – libertando a nossa mente, ela rejuvenesce, e torna-se mais inocente, cheia de vigor e, paixão. Só assim aprendemos e observamos e tomamos conhecimento de quem somos realmente.

E ao iniciar esta nova caminhada, fá-lo como se nada soubesses, esquece todas as ideias que tinhas àcerca de ti próprio. E caminha.
E em cada passo experiencía o que se te for deparando pelo caminho, sem te apegares, sem criares expectativas sobre o que isso te trará no passo seguinte, quer isso seja uma coisa ou uma pessoa. Limita-te a viver cada passo como se fosse o último que desses.
E sente a leveza com que passas a caminhar...
E mesmo que já estejas no caminho, é sempre bom lembrar!


Muita paz e Amor no silêncio do coração.
Onda Encantada

10 comentários:

Luis Carlos disse...

Olá,

Fantástico!!!

É isso mesmo!!!

Eu estou a ir por aí!!!

Agradeço-te este texto espectacular!!!

Agradeço a tua partilha!!!

Até já

greentea disse...

deixei um apelo lá no meu espaço,

para todos os cachorros ...e naõ só!

Luzidium disse...

Volto a utilizar a frase do Trigueirinho "O ser liberto reencontrou sua Casa nas profundezas da consciência e fielmente devotou sua vida a esse reencontro." Trigueirinho

O viajante abraça o mistério em puro silêncio e não teme abismos pois é conduzido pelo sopro da vida.

Abraço Luminescente

wicky disse...

se puderes passar lá no meu canto....

beijinhos

Maria disse...

Querida amiga,
é isso mesmo...
Bem hajas pelo texto.
Um abraço pleno de Luz e Amor

Chama Violeta disse...

Querida amiga! Lindo texto,muito que pensar e colocar em prática.
Obrigada pelas palavras em meu blog.Morrer não é o fim,é um recomeço bem vindo!
Beijos de luz!!!

Célia Marina disse...

A eterna procura do ser..
O eterno porque ao invisivel....
Mas no final seremos abençoados com o conhecimento...

Chuvas de amarelo dourado sobre seu coração

Célia

A Mónada disse...

Hoje deixo-te o mais curto dos comentários. Uma palavrinha apenas... nada mais.

Amen!

Abreijos de LUZ.

Fica bem...

Cláudia disse...

Não consegui parar de ler, até o texto terminar.Está fantástico!Divino...

Margri disse...

Gostei de ler este texto, já que encontrei bastantes afinidades com o meu pensar e sentir.
Depois da passagem por alguns "gurus" (mais tradicionais ou mais exóticos), também cheguei à conclusão que eu tinha que procurar o meu próprio caminho e aceitar sem medo todas as contingências (minhas ou alheias).
Também vou abatendo algumas barreiras e dogmas internos, mas sei que o percurso não é linear: há altos e baixos, retrocessos, dúvidas; mas não podemos baixar os braços, nem ter demasiada pressa.
Por outro lado, não desejo tornar-mr ermita, e vivo a minha condição social e totalmente humana, tentando ser eu própria.

Obrigada por esta partilha.

Um abraço.

Selos

EU SOU LUZ E QUERO ILUMINAR...
Cada passo do meu caminho para poder partilhá-lo contigo.