domingo, junho 3

Instrução Espiritual e a História Interminável

Jorn Endresen




Acredito que há pelo menos 6.000.000.000 de formas diferentes de fazer a mesma coisa.

Talvez por isso há um fenómeno que me descompensa um pouco no mundo religioso – e que atinge igualmente o mundo da busca espiritual integrada a organizações e a figuras carismáticas – e é este:

Uma história, “a história”> o instrutor que conhece a história> uma audiência passiva cuja única forma de se livrar da história é esperar que o instrutor chegue ao fim de contar a história.

Bem, este é um tempo em que os instrutores espirituais são apenas responsáveis pelo despertar nas massas da consciência de que realmente HÁ uma história (de onde vimos, para onde vamos, onde estamos neste momento, etc...) Mas não está claro se a função destas pessoas, digamos espiritualmente explicitas, seja a de contar a história até ao fim. Porquê?

Primeiro porque, de um ponto de vista iniciático profundo, os instrutores estão tão perdidos quanto o resto do mundo, eles simplesmente lidam de uma forma sagrada com o seu labirinto – o que é bom – depois porque contar a história até ao fim é uma atitude própria dos pais e das mães e num mundo de seres que se querem adultos e que já tiveram que arcar com um par de pais na infância... quem quer mais pais e mães depois de crescer?

Uma característica do indivíduo adulto é a de que ele termina as histórias que chegam até ele e as que nascem dentro dele - pela forma como vive.

Eu chamaria pai-mãe aquelas figuras para quem corremos em busca de segurança e GPS e chamaria irmão mais velho aquelas pessoas que nos desafiam, estimulam e desassossegam porque nos contam histórias que ainda não compreendemos bem mas nos magnetizam e chamaria irmão aquelas pessoas que nos ensinam coisas igualmente inesquecíveis simplesmente sendo eles mesmos e vivendo a árdua tarefa de manter o mundo a funcionar.

As pessoas espiritualmente explícitas – os instrutores – sabem, no íntimo, que o Universo lhes deu um mandato para oscilarem entre a figura do irmão-mais-velho e do irmão, não mais, não menos. Se forem bons contadores de histórias –afinal todo o conhecimento é uma narrativa até se transformar em Sabedoria dentro de nós, momento em que passa a ser uma vibração - saberão quando criar espaços, silêncios, formas moderadas, metáforas incompletas e regiões por definir de forma a que cada um de nós possa pegar na história com que se identifica e seguir construindo a sua parte da aventura.

Creio que é tarefa de um instrutor profundo contribuir para apresentar ao mundo espaços desconhecidos, espaços de cognição suficientemente definidos para serem reconhecidos mas suficientemente abertos para manter em nós um espírito de aventura e maravilhamento: em suma, espaços do ser totalmente enigmáticos e totalmente familiares ao mesmo tempo.

Por outro lado isto não desvitaliza ou reduz a tarefa de um instrutor. Sinto que -enquanto não eclode uma iniciação global- precisamos de mais instrutores e gurus e não de menos, mas precisamos de instrutores diferentes, que produzam um desassossego genuinamente libertador e que saibam contar a sua história mantendo tudo em aberto, isto é estimulando no receptor a actividade de criar a sua parte na história, como um professôr que expoe os alunos ás suas próprias preplexidades sem contudo anarquizar o seu trabalho de tutor. Não se trata apenas de instrutores com humor, mas de instrutores com consciência operativa da Vastidão do Ser.

Lembro-me de que quando era pequeno queria muito saber o fim das histórias, de outra forma acumulava-se um sentimento de insegurança. Agora aos 40 anos não sei se estou tão interessado em saber como as histórias acabam porque a responsabililidade pela minha própria história individual tornou-se a forma de contribuir para o fim de todas as histórias possíveis.

Um dos aspectos pobres da Bíblia entendida em termos populares – existem também os aspectos imensamente ricos naturalmente – é de que se trata de uma história fechada: Deus criou o mundo assim e assim, depois aconteceu um acidente assim e assim e o mundo avariou-se, depois veio um Messias que disse como se consertava o mundo e passou-nos a tarefa, depois, no fim, vem a contagem dos pontos e a salvação. Enquanto história é muito circular e fechada, sossega a criança em nós mas não deixa muito espaço para uma criatividade posterior.

Mas a verdade-mistério é que a Jerusalém Celeste, descendo à Terra - e eu faço parte do grupo de loucos que sente que isso vai acontecer literalmente e não apenas simbolicamente - não é o fim da história mas o princípio de uma nova aventura, o encontro da Humanidade com um patamar de stress criativo e responsabilidade cósmica muito mais vasto.

Depois de restaurado o Paraíso na Terra as nossas histórias individuais não terminam: cada ser receberá tarefas e desafios que hoje não podemos ainda compreender.

E cada um procurará mergulhar em mistérios cósmicos novos de formas novas e imprevisíveis, com uma impecável agilidade, diversidade e pluralidade.

O Livro de Urantia afirma que mesmo os Arcanjos tem lendas e especulações sobre como começou a Ilha Central de Havona, a singularidade das singularidades. Deduzo que quanto mais singular fôr o modo de caminhar de cada um de nós mais próximos estamos de Havona.

Não sabemos como a história acaba ou se acaba. Se dissermos que nunca acaba e não tem fim creio que isso já é abusivo, pode ter fim, pode não ter. É optimo.





André Louro de Almeida



PAX

4 comentários:

Luzidium disse...

"Agora aos 40 anos não sei se estou tão interessado em saber como as histórias acabam porque a responsabililidade pela minha própria história individual tornou-se a forma de contribuir para o fim de todas as histórias possíveis." Esta frase é muito engraçada...

Concordo, a Bíblia é de alguma forma circular, e impede-nos de alguma maneira de nos expandirmos numa direcção vertical ou seja espiralar ascendendo a dimensões mais etéreas, mas contém chaves herméticas profundas fantásticas...

Mesmo com todas as adulterações mantendo a humanidade numa dada frequência mental.

Abraço

A Mónada disse...

Li e reli... Quanto mais leio mais claro fica...

Que a realidade absoluta não existe e que a história da nossa existência é longínqua... é muito interessante sentir-se o seu plano evolutivo...

Que o papel dos instrutores é o que o André refere... não tenho qualquer dúvida, mas o nosso verdeiro guru é a nossa Divina Presença, nesta fase acredito que não precisamos de ir atrás de um qualquer guru pois ele já mora em nós.

O André fala também da Bíblia e da forma determinística como foi escrita, as histórias que conta ou até adultera, uma vez que foi traduzida, reescrita... emendada... tudo com base na consciência humana de há cerca de 2000 anos, no início da era de Peixes. Veja-se as características desta energia e veja-se depois os textos. Nunca poderiam ser escritos de forma diferente.

A Bíblia não deixa de ser um conjunto de textos (livros) com ensinamentos profundos, mesmo que metafóricos ou determinísticos, como sejam as descrições do Ínicio e do Fim dos Tempos e da Salvação.

Acredito que o a nossa história é apenas e somente o sentir da VIDA. Que interessa o fim... basta ser óptima.

Gostei muito... Excelente!

Fica bem.

António Rosa disse...

Gostei muito. Li com o melhor de mim: dando muita atenção.

ArteCultdesign disse...

Faço também parte do grupo de loucos que sente que isso irá acontecer e já está acontecendo literalmente e não apenas simbolicamente. Fiquei maravilhada com seu esclarecimento, da sua compreensão de estar nesse mundo contando sua história sem se ocupar em onde ela irá resultar. E o que é o término de uma história? As histórias de cada um não nos cabe encaixotá-las, não podem ser nomeadas linearmente, talvez o única certeza seja vivê-las em sua imprevisibilidade.
Um grande abraço!

Selos

EU SOU LUZ E QUERO ILUMINAR...
Cada passo do meu caminho para poder partilhá-lo contigo.