quarta-feira, junho 27

Vai até onde ... puderes!


Ergui os olhos, fitei-te. Ia dizer-te:
- Avô, é verdade que não há salvação? - Mas a língua prendeu-se-me. E quando tentei aproximar-me de ti, os joelhos fraquejaram.
Então, estendeste a mão, como se eu me afogasse e quisesses salvar-me. Agarrei-a àvidamente: ela estava salpicada de manchas multicolores; queimava. Toquei-lhe, ela deu-me força, um impulso, e pude falar.
- Avô - disse -, dá-me as tuas ordens.
Tu sorriste, puseste a mão sobre a minha cabeça. Não era mão, era um fogo multicolor. E esse fogo derramou-se até às raízes do meu espírito.
- Vai até onde puderes, meu filho...
A tua voz era grave, sombria, como se saísse da garganta profunda da terra.
Atingira as raízes do meu cérebro, mas o meu coração não acusou qualquer sobressalto.
- Avô - gritei então com voz mais forte - dá-me uma ordem mais difícil, mais cretense.
E, bruscamente, mal o tinha dito, uma chama cortou o ar. Assobiando, o antepassado indomável com cabeleira entrelaçada de raízes de tomilho desapareceu da minha vista: no alto do Sinai apenas restava uma voz imperiosa, que fazia estremecer o ar.
- Vai até onde não puderes.
.
in "Carta a Greco" de Nikos Kazantzaki


4 comentários:

A Mónada disse...

Vai até onde puderes. Vai até onde não puderes...

A transcendência do Ser. Que lindo texto. Senti a magia da sua LUZ e da sua energia.

Obg pela partilha.

Fica bem...

Anónimo disse...

Que lindo...

Anónimo disse...

Este texto tocou-me fundo, bem fundo.
Vou ficar a matutar.
"Vai até onde puderes" parece-me igual a "Vai até onde não puderes"...
Olá again!
Branca

Anónimo disse...

Este belo texto tocou-me nas cordas das alma, pelo conteúdo, forma,e pela imagens que imaginei

Quantas vezes nem sequer vamos onde podemos... Mas, à medida que vamos indo cada vez mais onde podemos, chega uma altura em que percebemos que, afinal, já fomos, hoje, onde não podíamos ir ontem.
CN

Selos

EU SOU LUZ E QUERO ILUMINAR...
Cada passo do meu caminho para poder partilhá-lo contigo.